Poucos dias separam as duas datas. Abril começa com o Dia da Mentira e menos de uma semana depois, o dia do jornalismo, profissão que se baseia na verdade, é celebrado. A proximidade não seria relevante se, à medida que a conectividade avançasse, as informações enganosas não se ficassem limitadas a apenas 24 horas do ano, o que torna o ofício de reportar mais necessário.

Popularmente conhecidas pela denominação em inglês, as fake news são criadas e divulgadas com o objetivo de legitimar um ponto de vista ou prejudicar alguém. Geralmente, uma figura pública. São detentoras de grande apelo emocional, que fazem não somente as pessoas consumirem, mas também replicarem, confirmando o tal poder viral que possuem.

Para a jornalista Taciana Chiquetti, que também é psicóloga, a capacidade de persuasão das fake news é maior em populações com menor escolaridade, como é o caso do Brasil. “Além do baixo nível cultural, tem peso o uso das redes sociais como única fonte de informação. Porém, podem alcançar pessoas com mais estudo, já que há quase sempre viés político”, comenta ela.

Prova disso é que o termo ficou super conhecido em todo o mundo no ano de 2016, quando Donald Trump e Hillary Clinton disputaram a Presidência dos Estados Unidos. No Brasil, dois anos depois, no embate Jair Bolsonaro versus Fernando Haddad, o radar de notícias falsas alarmou mais que o de propostas apresentadas.

A prática, porém, não é novidade. O professor de história Breno Câmara é capaz de mencionar fatos conhecidos há dezenas e até centenas de anos. “Dois deles merecem destaque: o episódio da Guerra dos Mundos nos anos 1930, nos Estados Unidos, e o princípio da propaganda nazista”, lembra ele.

O primeiro, acontecido em 30 de outubro de 1938, deu-se quando um programa de rádio simulou uma invasão extraterrestre, desencadeando pânico na costa leste norte-americana. Já no movimento político liderado por Adolf Hitler na Alemanha, o ministro da propaganda Joseph Goebbels teve papel decisivo e afirmou ele: “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.

O inverso, felizmente, não acontece. A verdade sempre será a verdade. Independentemente de quantas vezes seja repetida. Nesse contexto, é o jornalismo quem a faz prevalecer. Abril continuará sendo o mês de celebração dos dois lados da realidade, a criada e a narrada. Entretanto, é o bom exercício da apuração e da reportagem que vão assegurar que o segundo fale mais alto.

Por Octávio Santiago, jornalista.