A etimologia da palavra “lógica” está situada no grego antigo, logikós. Este, por sua vez, é derivado da ideia filosófica de logos, ou seja, a razão, o conjunto de leis racionais que a tudo regem no universo. Na Grécia antiga, em fins do século VII a.C. e início do século VI a.C., explicações sustentadas unicamente por tradições mitológicas passaram a ser contestadas por uma nova forma de pensamento, a filosofia e a sua noção de logos, desenvolvida por aqueles que ficaram conhecidos com os filósofos pré-socráticos. Entretanto, devemos creditar ao filósofo Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) o real desenvolvimento da ciência lógica, na obra Organon. A lógica aristotélica, também chamada de lógica analítica, se debruçava sobre a relação entre o pensamento e a verdade. Dessa forma, a lógica configurou-se, desde a sua origem, como uma ferramenta de análise acerca das regras do pensamento racional e organizado, da veracidade e coerência das premissas e conclusões, bem como as falhas argumentativas e de pensamentos, intituladas como falácias.

O alemão Gottlob Frege, no século XIX, proporcionou um avanço nos estudos da lógica, ao propor a inserção de números e cálculos, estudando proposições linguísticas por meio de processos dedutivos matemáticos. Esse casamento lógica-matemática, também favorecido pelos estudos de Boole e Morgan, foi tão intenso e frutífero, que até mesmo o funcionamento dos computadores, da informática, os algoritmos e o desenvolvimento de inteligência artificial não seriam possíveis sem essa mudança. A força da Matemática nos estudos da lógica foi tão intensa que, atualmente nas escolas, as duas são confundidas quase como uma só.

Contudo, atrelar as ferramentas oferecidas pela lógica apenas à Matemática constitui-se como um limitante pedagógico a ser enfrentado e evitado. Não só a aprendizagem da Matemática requer um arcabouço interpretativo-argumentativo lógico. Estudar lógica não deve ser visto como um fim, mas, notadamente como um meio, um caminho em busca de construção de conhecimentos coerentes e que bem se sustentam. Destarte, temos que enxergar o ensino da lógica para além dos números, da Matemática.

O estudo da lógica dá aos educandos um arsenal de ferramentas para refletir acerca dos fenômenos naturais, sociais, econômicos, políticos e culturais de forma reflexiva e raciocinada. Essa prática visa sempre à produção de argumentos válidos e de respostas verdadeiras e aceitas. Incentivar, sistemática e oficialmente, o estudo da lógica nas escolas, permite que os jovens desenvolvam a habilidade de pensar e argumentar, de forma mais crítica, os conteúdos de diversas disciplinas da grade curricular, visto que todas elas necessitam de posturas interpretativas coerentes, racionais e corretas de seus conteúdos, para que um aprendizado significativo e efetivo ocorra.

Outrossim, não só o processo de aprendizado demanda um olhar interpretativo analítico-lógico, mas também a nossa necessidade cotidiana de opinar, argumentar e convencer grupos acerca de nossas ideias e desejos. Nesse sentido, nossas argumentações devem seguir um desencadeamento de argumentos lógicos e coerentes, minimizando os efeitos de duplas interpretações sobre o que foi exposto. 

Por fim e diante do exposto, evidencia-se com cada vez mais clareza a importância da configuração de um processo educacional bem alinhado com o estudo da lógica, não só na Matemática, mas também nos estudos da História, Geografia, Sociologia, Física etc. Reflexão, interpretação, argumentação, coerência, crítica racional, são condições imperativas para os jovens que almejam uma inserção positiva na sociedade pós-moderna do século XXI. Por conseguinte, é possível que, mesmo em meio a toda subjetividade que constitui o ser humano, tenhamos e possamos incentivar o olhar lógico, pois como disse Henry Goodwin: “a lógica é a anatomia do pensamento”. 

Por Marília Pinto, professora de Matemática dos Anos Finais.